Putin e a nova Guerra Fria
 
                Semana passada as potências imperiais se uniram num espetáculo grotesco: com as antenas da mídia internacional ligadas na mais alta potência, declararam alto e bom som – para o mundo todo ver e ouvir – que a Rússia continuará sendo castigada com sanções econômicas pesadas por “continuar com seus planos de invadir a Ucrânia”. Tudo não passa de mise-en-scène recheada de hipocrisia.
 
                1. – Em 2004 o governo Bush investiu milhões de dólares para bancar os golpistas ucranianos que fizeram a pseudo “revolução laranja”,  pondo fim a um governo democraticamente eleito e colocando no poder um teleguiado seu: Yushenko. No início deste ano de 2014, o presidente Yanukovitch – democraticamente eleito também – foi deposto por mais um golpe contra o povo ucraniano, conduzido e bancado pelos EUA e UE.
 
                2. – Palavras do cientista político indiano Rakesh Krishnan Simha: “O modus operandi [do governo] americano – em sintonia com o britânico – é o de organizar golpes, rebeliões e contrarevoluções em países onde líderes nacionalistas chegarem ao poder”. Sempre foi assim – que o diga Noam Chomsky – e assim será enquanto persistir a fase de decadência em que se encontram as potências imperiais.
 
            3. – Na Síria e na Crimeia esse script não funcionou. O jeito foi apelar para a ignorância: na Síria, Obama e os líderes da UE patrocinaram hordas de mercenários para tentar derrubar Al-Assad; na Crimeia, intervieram para tentar fragilizar geopoliticamente a Rússia de Putin. Essas estratégias foram derrotadas fragorosamente. Foi tudo isso que motivou a encenação a que me referi no início do texto.
 
            4. – A questão agora é não só manter como expandir a instabilidade na Ucrânia, para forçar a Rússia a invadir o país. A lógica é simples: é preciso aprofundar a nova Guerra Fria. E o caminho mais curto para isso é criar um conflito regional na Europa. Afinal, os grandes “milagres econômicos” ocorridos nos EUA – transformando-os na maior potência do Planeta – foram consequência, fundamentalmente, dos lucros extraordinários obtidos com a 1ª e a 2ª Grandes Guerras mundiais – e, claro, com a velha Guerra Fria.
 
            5. – Putin – sem dúvida – está ganhando a atual Guerra Fria. Sua contra-ofensiva está fundamentada em três frentes de combate: (a) Evitar a arapuca armada pelos norte-americanos para provocar um conflito bélico na Ucrânia; (b) Articular, com a ajuda dos demais países do BRICS, um ataque “ao pilar chave do poderio americano – o dólar”, como diz Rakesh Simha. Isso poderá impactar dolorosamente a economia americana, na medida em que o atual fluxo de divisas dos países emergentes para as potências imperiais pode parar ou, no mínimo, diminuir sensivelmente.
 
            A terceira frente: (c) Em resposta às sanções econômicas, Putin cancelou o projeto de construção do gasoduto South Stream, que abasteceria o Sul da Europa com o gás russo. Mais, a Rússia fez um acordo para abastecer a China e, outro, prevendo a construção de um gasoduto para atender à Turquia. Moral da história: a UE, em consequência, fica mais dividida e fragilizada.
               
6. – “A Rússia tem o hábito de triturar seus inimigos. Depois de Napoleão e Hitler, pode ser a vez dos americanos reconhecerem os perigos de atrair o predador”, diz Simha. Pois é!
 
Emerson Leal – Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-presidente do PPL de SP.
DEZ/2014.

 

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