EDITORIAL

 

Cuba, EUA e o Atlântico Sul

Brasil de Fato

Edição 617

 

19.12.2014

 

 

 

Sem dúvida, os passos de Washington em direção ao fim das hostilidades contra Havana e seu povo, devem ser saudados. A Paz Internacional sempre foi a palavra de ordem das forças de esquerda.

No entanto, ainda é cedo para entendermos seu verdadeiro sentido, seu verdadeiro significado e conseqüências.

Obviamente, o fato de a opinião pública estadunidense ser favorável a “mudanças importantes na política cubana de Washington” – como explica Julia Sweig, – diretora do programa América Latina do Council on Foreign Relations, tem seu peso – sobretudo eleitoral. Peso maior tem, certamente, o isolamento dos EUA na comunidade americana – apenas como exemplo: em janeiro próximo (2015), os Estados Unidos terão de enfrentar, pela primeira vez, a presença de Cuba na Cúpula das Américas que se reunirá no Panamá, conforme foi decidido na última reunião desse organismo em Cartagena (Colômbia), em 2012. E tudo isto – não há como ocultar – vem sendo acumulado ao longo de anos, com a participação da diplomacia dos países de governos progressistas e/ou de esquerda da América Latina, entre os quais o Brasil tem se destacado.

Tudo isto é de grande importância, mas não nos parece suficiente para que, de repente – mesmo depois de 18 meses de gestões do Vaticano –, Washington resolva reconhecer 53 anos de erros e derrotas em sua política externa para a América Latina.

É fundamental pensarmos essa guinada da Casa Branca dentro de um contexto internacional mais amplo, no qual o controle da Bacia do Atlântico – especialmente do Atlântico Sul – ameaça não mais se satisfazer apenas com os anéis, e já ameaça até alguns pedaços dos dedos de Tio Sam.

Organismos regionais – como a Unasul (União das Nações Sul-Americanas); o Mercosul; o Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe) têm transformado o quadro da correlação de forças no Continente. Isto para não entrarmos no detalhamento dos diversos acordos bi ou plurilaterais entre os países sul-americanos da costa do Atlântico Sul, e os estados nação africanos situados às margens da mesma bacia.

Outros fatores também mudam o velho quadro do Império, frente a tudo o que sempre considerou o seu “quintal”.

A China constrói hoje, ao Sul da Nicarágua, um canal de ligação entre o Pacífico e o Atlântico, que pode – no médio prazo – transformar o Canal do Panamá algo superado, obsoleto – apesar das obras pelas quais passou esse último. Ora, esta nova passagem, para além do aspecto econômico, implica disputa de hegemonia militar em ambos os Oceanos: Pequim não mais necessita navegar 360 graus para chegar ao Atlântico, para chegar a Havana, ou às águas do Atlântico Sul, ao Campo de Lira (Pré-Sal) ou às demais riquezas submarinas ali imersas, como cobalto, níquel, magnésio, fosfato, gás metano e outros minerais raros que Brasília pretende explorar dentro de dez anos.

Ora, se é verdade que a OTAN, em sua reunião de cerca de 10 anos atrás, em Lisboa, passou a se entender não mais apenas como uma aliança restrita ao Atlântico Norte, mas como uma força de intervenção global que pode levá-la a intervir em qualquer ponto do planeta onde os “interesses ocidentais” possam estar ameaçados, não é menos verdade que o plano da Marinha brasileira – hoje em vigésimo lugar – é o de se tornar, na próxima década, a nona Armada do Mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, China, Rússia, França, Inglaterra, Índia, Coréia do Sul e Japão. Faz parte também dos planos estratégicos da nossa Marinha, construir uma segunda esquadra – ao lado da que temos fundeada no Rio de Janeiro – estacionada próxima à foz do Amazonas, que dê cobertura ao litoral norte do País.

Por fim, e nem um pouco menos importante, temos o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que, com seu recém criado Banco de Fomento, além de se constituir numa ameaça ao império do dólar enquanto moeda padrão para o comércio internacional e reunir três potências atômicas (Rússia, Índia e China), tem como guardiões às margens do Atlântico Meridional, Brasil e África do Sul.

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