Folha de São Paulo de hoje.

Canção de ninar

Música infantil que alerta para risco de tsunami ajudou a salvar habitantes de ilha indonésia da tragédia de 2004

MARCELO NINIO ENVIADO ESPECIAL A ACEH (INDONÉSIA)Uma canção de ninar pode salvar muitas vidas. Essa foi uma das lições do tsunami na Indonésia, o país mais castigado pelo desastre que completa dez anos na sexta (26).

A lição veio da pequena ilha de Simeulue (pronuncia-se simelu), pouco mais que um ponto no mapa da Indonésia, formada por um arquipélago de 19 mil ilhas. Paraíso de surfistas e mergulhadores, Simeulue era o ponto mais próximo do epicentro do terremoto que gerou tsunamis devastadores no oceano Índico em 2004. Mais de 230 mil pessoas morreram em 14 países, 70% delas na Indonésia.

Apesar de sofrer o primeiro impacto, Simeulue escapou com poucas baixas graças a um costume mantido de geração em geração há mais de cem anos. A ilha foi arrasada por um tsunami em 1907, e desde então os pais passaram a cantar uma canção de ninar a seus filhos, alertando para o perigo.

Muito antes de a expressão japonesa tsunami (maremoto) entrar no vocabulário do mundo, as crianças de Simeulue já conheciam do berço a palavra “smong” –“onda gigante” em devayan, o idioma local. Embalada por versos poéticos e pitadas de conto de fadas, a canção de ninar ensina que, quando o mar recua, é hora de fugir para as montanhas, porque uma inundação está a caminho.

Na manhã daquele domingo, dez anos atrás, os moradores de Simeulue sabiam o que fazer após o terremoto de 9,3 graus na escala Richter, um dos mais potentes já registrados. Com uma população de 80 mil pessoas, a ilha teve sete mortos no tsunami.

A tradição não está só na canção de ninar. mas em toda a cultura popular local. Natural de Simeulue, o fotógrafo Ampuh Devayan, 53, conta que cresceu ouvindo histórias sobre o “smong” em reuniões familiares e vendo cenas do tsunami de 1907 retratadas em pinturas populares.

Devayan vive em Aceh, a região mais atingida pelo tsunami de 2004, a 360 km de Simeulue. Ao sentir o terremoto, gritou instintivamente o alerta que povoou a sua infância, e que ele passou para os três filhos. “Smong!”

Sob a resistência da mulher, natural de Aceh e descrente da tradição, abasteceu-se de arroz e água e colocou a família no carro para se refugiar num local elevado. A mulher hesitou antes de entrar no carro e Devayan deu o ultimato: “Ou vai ou fica”.

Ela foi, mas os vizinhos ficaram. Devayan diz que avisou que era hora de partir, mas não o levaram a sério. “Me chamaram de louco.”

Desde 2004, houve grande melhora no sistema de alerta, com uma rede de sensores que une os países da região. Mas a sabedoria tradicional é levada a sério pelos especialistas.

O Centro de Pesquisa do Tsunami de Aceh tem programas educacionais inspirados no “smong” para treinar as crianças desde cedo a saber o que fazer se a onda voltar.

O “smong” também está prestes a virar revista em quadrinhos, por iniciativa de uma ONG de Aceh. É a forma de adaptar a canção de ninar de Simeulue para uma linguagem de que as crianças gostam, diz Yulfan, um dos responsáveis pelo centro cultural Komunitas Tikar Pandan.

A experiência de Simeulue é tema de estudos acadêmicos que frisam a importância da tradição popular na preparação para desastres naturais. “A sabedoria nativa deveria ser adaptável, transferível e modificada conforme as condições de cada comunidade”, diz a pesquisadora Syafwina Syafwina, da Universidade de Kyoto (Japão).

Para quem cresceu na cultura do “smong”, o sistema de alerta de Simeulue faz parte de uma filosofia de vida — observar a natureza para respeitá-la, mas sem temê-la.

“Aprendemos a ler o comportamento dos animais. Quando os pássaros voam para as montanhas, os cães ficam nervosos e as formigas saem do chão, é sinal de que alguma coisa está errada”, garante o fotógrafo Devayan.

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