Portal 247 – 12 JAN 2014

POR QUE O CHARLIE HEBDO DEVE SER CRITICADO

“Se você realmente respeita tanto o Charlie Hebdo pelo seu caráter iconoclasta, então aprenda com ele a ser iconoclasta e entenda que idolatrar um jornal, um cartunista ou um slogan é estar cego para a crítica que você jura defender”, diz Plínio Zúnica, estudante de cultura árabe e autor de um texto (Je ne suis pas Charlie), que viralizou na internet; Zúnica argumenta que a principal razão para não ser Charlie é o luto seletivo; “por que e de que modo a sociedade, a política e a mídia internacional escolhem quais mortes valem uma primeira página de jornal, um encontro de líderes mundiais andando de mãos dadas ou um slogan de solidariedade no seu facebook?”, questiona; Zúnica lembra ainda que o Charlie contribuía para um processo de desumanização do oprimido, “uma ferramenta vital para possibilitar a opressão sem que o opressor se sinta culpado”

12 DE JANEIRO DE 2015 ÀS 21:21

Discutindo Charlie – Parte 1: “Je Suis Quem?”

Por Plínio Zúnica

A questão Charlie Hebdo levantou muitas discussões, seja nos comentários do meu blog, seja em textos de outros autores ou nas redes sociais mundo afora. Por isso, quero discutir aqui alguns dos pontos principais que me foram trazidos por diversas pessoas. São muitos pontos importantes, que merecem uma atenção detalhada, então farei o meu melhor pra aborda-los em textos separados, uma vez que uma reclamação constante sobre o meu último texto (leia aqui) foi que ele ficou longo demais. Hoje faço uma rápida reflexão sobre a briga entre “Je suis Charlie” e “Je ne suis pas Charlie”

1- “Se você não é Charlie, então você defende os terroristas” – ou a lógica do Quem não está conosco está contra nós.

Existe uma diferença enorme entre escrever “Eu não sou Charlie” e dizer “Eu sou a Al Qaeda”. Não vi nenhum texto que diga se posicione a favor do massacre contra os cartunistas (apesar de não duvidar da existência de textos assim). É verdade que vi muita gente dizendo em comentários de internet que os cartunistas mereceram o que lhes aconteceu por atacar a religião alheia, ou por saberem que “com fanático não se mexe”. Deixe-me esclarecer que quem diz isso está muito errado. Ninguém merece ser assassinado por emitir opiniões ou por qualquer outra razão que o valha. Questionar as razões da comoção internacional, contestar o conteúdo de certas charges ou falar sobre a islamofobia na França não é se posicionar à favor da Al Qaeda, simplesmente porque o mundo não é um jogo de mocinho e bandido.

Existem muitas boas razões pra que pessoas se declarem como não sendo Charlie. Acredito que a principal razão seja a indignação com o “luto seletivo”. Pessoas se indignam não porque é errado que a sociedade se choque com o que aconteceu com os cartunistas, mas sim porque a sociedade não se choca com todos os massacres que acontecem na África, no Oriente Médio e no Brasil. Afinal, o que essas pessoas estão perguntando é por que o assassinato de jornalistas brancos franceses é tão mais significativo do que o genocídio da população negra do Brasil, os estupros e assassinatos de mulheres e os ataques bárbaros contra gays, lésbicas e pessoas transexuais? Por que nenhum líder mundial se pronunciou contra o atentado do Boko Haram na Nigéria, que matou 2.000 pessoas? Quem questiona isso não está dizendo que você não tem o direito de estar chocado com o ocorrido na França. O que essas pessoas se perguntam é: por que e de que modo a sociedade, a política e a mídia internacional escolhem quais mortes valem uma primeira página de jornal, um encontro de líderes mundiais andando de mãos dadas ou um slogan de solidariedade no seu facebook?

Assim, surgiram diversos slogans alternativos, questionando o luto seletivo, como “Je suis Amarildo”, “Je suis Ahmed” e “Je suis 83 negr@s mort@s por dia no Brasil”. São questionamentos que devem ser feitos, e que convidam as pessoas a refletir sobre o poder de controle ideológico da mídia e seus interesses políticos.

Trocando em miúdos: quando homens assassinam mulheres, a mídia não quer que você pense nisso. Quando crianças indígenas são assassinadas por madeireiros e latifundiários, os jornais não tentam te fazer chorar. Quando gays, lésbicas e transexuais são torturados em nome de um discurso religioso fundamentalista, os jornais não querem que vocês pensem em cristãos como terroristas (e de fato não se pode culpar todos os cristãos pelo fundamentalismo de alguns, como não se pode culpar todos os muçulmanos pelos grupos terroristas ou não se pode culpar todos os judeus pelos crimes de guerra de Israel).

O governo de São Paulo não quer as pessoas se solidarizem com as vítimas dos mais de dez mil assassinatos cometidos pela Policia Militar nos últimos 19 anos. Mas quando extremistas muçulmanos cometem um crime bárbaro contra jornalistas brancos europeus, então a mídia e os governos farão de tudo para que você saiba quem são as vítimas e quem são os inimigos.

A segunda razão principal, e a que tentei retratar no meu ultimo texto, é o caráter racista das charges do CH e os efeitos dela na sociedade.

2- “Você não pode falar mal do Charles Hebdo porque ele falava mal de todo mundo”

É curioso como muitas pessoas defendem passionalmente o CH por ele ser considerado um jornal de esquerda que se dava a liberdade de falar mal de todo mundo, e isso faz com que ninguém possa falar mal dele. Afinal, por que um jornal pode apontar os problemas de uma religião e eu não posso apontar os problemas de um jornal?

O objetivo do meu ultimo texto é questionar a iconização da revista Charlie Hebdo como sendo um bastião da extrema esquerda e libelo da liberdade de expressão. O objeto central da minha análise é o modo como representações e piadas racistas ajudam a inflamar o racismo da parcela racista de uma sociedade. No caso, o CH é um jornal que defendeu diversas pautas libertárias de um modo interessante ao longo da sua história, mas que infelizmente escorregou feio quando retratava o Islã, quando representava negros e em muitas charges machistas. Eles afirmam que estavam atacando os grupos extremistas islâmicos, e esse pode ser um objetivo muito nobre e bem intencionado, mas as imagens que eles espalhavam era de que o Islã e os muçulmanos são todos um grupo de selvagens, radicais, violentos e ignorantes. Quem lê esse jornal não são os membros da Al Qaeda, e sim a população francesa branca, européia de origem cristã. Assim, quando essas pessoas vêem essa imagem, elas cristalizam a ideia de que os muçulmanos são todos daquele jeito caricato. Isso desumaniza os muçulmanos, faz com que as pessoas de fora os vejam não como indivíduos pensantes com características, vontades e liberdades próprias, e sim como um grupo homogêneo e estagnado. Frantz Fanon e Edward Said analisam brilhantemente esse processo de desumanização do oprimido e o modo como isso é uma ferramenta vital para possibilitar a opressão sem que o opressor se sinta culpado. Em muitos casos, o opressor acredita que está ajudando esses “selvagens”, libertando-os do seus costumes bárbaros e religiões barulhentas, ensinando-lhes a serem civilizados, democráticos, comerem com garfo e faca e ouvir Mozart. É o tal “fardo do homem branco”, uma abominação retórica feita de arrogância, ignorância e às vezes até um pouco de boa intenção por parte de algumas pessoas que compram esse discurso.

Isso não significa que todos os franceses sejam xenófobos, não significa que os cartunistas mereceram morrer, não significa que terrorismo seja legal e nem significa que o Charlie Hebdo seja o único culpado da Islamofobia na França.

O jornal em questão pode ter publicado excelentes cartuns sobre marxismo e contra a direita, mas isso não o isenta de ter sido racista. Muitos escritores e militantes fazem um trabalho incrível falando sobre racismo e isso não impede que eles sejam machistas. Conheço grupos que fazem um trabalho exemplar sobre a luta do operariado, mas que acreditam que o fim do Capital trará o fim do racismo e machismo (o que, na melhor das hipóteses, é uma afirmação ingênua). Enquanto militante pró-palestina, perdi a conta de quantas vezes vi companheiros fazendo afirmações racistas contra judeus ao invés de atacar o sionismo. Se declarar “de esquerda” não faz com que você esteja isento de ser um opressor, e tentar defender uma pauta libertária é sempre louvável, mas as vezes pode ser que você esteja fazendo besteira e piorando a lambança. É por isso que quando se quer falar sobre opressão sofrida por negros nós devemos ouvir o que dizem militantes negros, e quando queremos defender os direitos das mulheres precisamos aprender a ouvir o que dizem militantes mulheres. Vi diversos muçulmanos falando sobre como as charges do CH eram ofensivas, e vi diversas mulheres negras falando sobre o racismo e machismo de outras charges desse jornal, e se essas pessoas se sentiram ultrajadas, então eu não tenho nenhum direito de, do alto da minha experiência de homem branco que nunca sofreu machismo ou racismo, contestar o sentimento e a crítica feita por quem sofre essas violências diariamente.

Eu tento fazer o meu melhor pra lutar contra meu próprio machismo e racismo, contra os preconceitos dentro dos quais fui criado e os sistemas dos quais sou um privilegiado, mas sei que escorreguei muitas vezes, e é possível que eu ainda venha a errar muitas vezes. O fato de eu me esforçar para desconstruir meus preconceitos não me isenta de ser criticado quando eu errar. Na verdade, eu fico muito grato quando alguém me explica que errei, porque aí posso evitar cometer o mesmo erro novamente.

Se você realmente respeita tanto o Charlie Hebdo pelo seu caráter iconoclasta, então aprenda com ele a ser iconoclasta e entenda que idolatrar um jornal, um cartunista ou um slogan é estar cego para a crítica que você jura defender.
(*) Plínio Zúnica é estudante de Língua e Literatura Árabe da Universidade de São Paulo. Esteve duas vezes nos Territórios Ocupados da Palestina, onde trabalhou como corrdenador da Educacional Network for Human Rights in Palestine/Israel. Atualmente vive no Cairo. Texto originalmente publicado no blog Descolonizações.

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