Os “Neopreocupados”

Fernando Horta

— Tomo emprestado um neologismo de um brilhante amigo. O Brasil, nos últimos anos, foi tomado por um movimento deveras interessante: os neopreocupados. Esse grupo é composto por aquelas pessoas que, de surto, passaram a preocuparem-se com o mundo à sua volta. Do nada, foram acometidos por alguma enfermidade viral que provavelmente teve origem em uma gripe que a Madre Tereza de Calcutá disseminou. Passaram a sentir as dores do outro, as agruras do outro, as dificuldades do outro. Não é todo o outro que é digno disso, mas já é um enorme passo.

 

Primeiro foram os preocupados com os pobres brasileiros. Do nada passaram a se preocupar com a falta de perspectivas que o programa Bolsa Família dava aos seus segurados. Tocante. Argumentam que o valor (entre 70 e 200 reais) não permite uma vida digna, tampouco permite uma melhoria de vida. Desimportante é o fato de dar ao segurado algo o que comer, coisa que muitos não tinham. O que realmente importa é que o programa pode ser usado de “cabresto eleitoral”. Voto em troca de comida. Um absurdo. Melhor tirar logo a comida e deixar o voto com quem “sabe o que fazer com ele”.

 

Em seguida, surgiram os preocupados com a saúde do brasileiro. O SUS (que é o único programa de atendimento de saúde existente no mundo para toda uma população em países com mais de 100 milhões de habitantes) não atende corretamente o pobre. É revoltante. São seis meses e até um ano para marcar um exame, filas nos atendimentos, falta de aparelhos nos hospitais. Falta investimento para atender o pobre. Afinal, agora que ele come ele tem pega pneumonia e precisa de hospital. Não importa o fato de o pobre nunca (nesses 500 anos) ter tido atendimento nenhum e que agora ao menos ele tem uma consulta ou exame para daqui a seis meses. Não importa o fato de que os desvios na área da saúde começam no congresso e terminam nas salas de atendimento.

 

Num segundo movimento, a preocupação se internacionalizou. Surgiram os preocupados com o regime de trabalho e pagamento acertado internacionalmente pelo tratado de cooperação entre Cuba e a OMS e entre a OMS e o Brasil. É revoltante que um médico cubano (“curandeiro” para os “neopreocupados”) ganhe “só” mais de dez mil reais mês tendo casa, transporte e alimentação pagos pelo governo para atender brasileiros que moram em cidades que nem no mapa aparecem. Pior ainda é eles receberem parte desse dinheiro e outra parte ser automaticamente depositada em Cuba. O correto seria que eles tivessem que pagar as taxas bancárias privadas para mandar seu dinheiro para Cuba (e perder dinheiro com o duplo câmbio), ou ainda receberem tudo no Brasil para gastar nos shoppings, festas e etc. Afinal, é impossível que alguém não goste de fazer essas coisas e prefira pagar o Estado que lhe formou médico sem cobrar nada e continua formando seus concidadãos. Um dever moral se levanta para salvar esses cubanos da opressão capitalista do mercado. Para salvar os africanos – por exemplo – da mesma opressão não há um pio.

 

Agora, aumentando o grau de internacionalização, surgem os preocupados com a laicidade do Estado e com o direito de livre expressão. É repugnante o assassinato de cartunistas, brancos, europeus por causa das suas ideias. Inaceitável. É preciso que se aumente a coerção sobre esses “grupos” de praticantes de ideias “fundamentalistas”. Essa ameaça a sociedade ocidental e civilizada. Pouco importa se essa mesma sociedade mata muçulmanos por todo o mundo (África, Ásia e Oriente Médio) e cerceia a liberdade de expressão desses grupos (basta ver os bloqueios ocidentais à criação do Estado da Palestina, o uso de burca dos véus na Europa ou as notícias da faixa de Gaza, por exemplo). Morreram quinze europeus de forma brutal e indevida, mas a esses “neopreocupados” pouco importa que morram mais de 150 pessoas por dia na África Central ou na Palestina pelo mesmo “choque de civilizações”. Afinal as vidas europeias de brancos cultos têm primazia sobre a vida de negros pobres africanos ou mesmo sobre crianças palestinas.

 

O fato real é o cinismo desses neopreocupados. Nunca antes haviam se preocupado com o que a população em situação de mendicância tinha para comer. Suas crianças desnutridas ou mães desesperadas. Nunca entenderam que a loló e depois a cocaína eram usadas para aliviar a dor do estômago vazio. Nunca haviam se preocupado com o doente pobre que morre antes do atendimento. Com o médico que não cumpre horário e exatamente por isso a fila de consultas nunca anda. Nunca se preocuparam antes com o caseiro do seu sítio ou sua empregada doméstica que recebiam miséria pelo trabalho semi-servil. Mas com os pobres cubanos, “escravizados pelos Castro” deve ser diferente.

 

A vilania é que essas pessoas usam as vicissitudes alheias para impulsionar suas próprias agendas morais e políticas. Normalmente sórdidas. Essa preocupação seletiva que incide lateralmente nos grupos sobre os quais lhes interessam por analogia exercer alguma demanda política. Os “neopreocupados” são tão vis quanto o pastor que engana seus fiéis doentes oferecendo-lhes “palavras de conforto” em troca de dinheiro e prometendo-lhes cura. São tão mesquinhos quanto o empresário que demite um funcionário para contratar outro por um valor menor e usa como desculpa o “mercado”. São tão falsos quanto os juízes decidindo sobre seus auxílios-moradia e reclamando do custo do Estado. Falsos como o médico que denuncia a corrupção alheia e participa de máfias na saúde. Falsas e canalhas agendas moralistas que caem como uma luva para o fortalecimento dos interesses individuais. Uma vez que estes estejam assegurados se transformarão, novamente, nos velhos despreocupados de sempre.

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– Fernando Horta, professor, historiador, doutorando em Relações Internacionais UNB.

15/jan/2015

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