Do Blogue Cafezinho – Miguel do Rosário me fez repensar e assim espero em em todos que lerem.

Relembrando o grande Henfil – ” O humor termina quando começa a dor humana.”

A geopolítica e o mal

Paris-1968 (1)


Embora arriscando-me a abusar de vossa paciência, gostaria de prosseguir no tema que gerou tanta polêmica no blog: os atentados terroristas em Paris.

Faço-o não por amor fútil à polêmica pela polêmica, mas porque ele me levará, após alguns esclarecimentos, a debater uma questão que me vem aguilhoando a cachola: existe o mal em geopolítica?

Por trás da opressão colonial, do imperialismo, da exploração econômica, das guerras, existem forças conscientes do mal que provocam?

Não é uma questão boba porque, sem que disso tenhamos consciência, influencia fortemente a maneira como analisamos os fatos políticos.

Em relação ao caso específico dos atentados terroristas de Paris, tem tudo a ver. Sobre isso discorreremos daqui a pouco.

Antes, combinemos algumas regras para um debate saudável.

Se não é possível que seja uma conversa bem humorada, em virtude das cores sombrias, às vezes sanguinolentas, do tema discutido, que seja ao menos bem disposto e tranquilo.

Muitos leitores discordaram da minha abordagem do caso Charlie Hebdo. Normal. Quiçá estejam eles certos, e eu errado.

Existe a hipótese também (remota, se assim o desejarem, ou mesmo remotíssima) de a razão estar comigo.

Pode ser que eu tenha razão em alguns pontos, e os que discordam, em outros.

Alguns leitores preferiram enxergar o debate como uma liça vulgar ou, pior, como um comício sindical no qual ganha quem obtêm maior quantidade de votos. Isso é eleição. Um debate segue outra lógica. Pode se dar – e isso acontece com frequência – que a minoria tenha razão.

Raramente fatos políticos complexos podem ser compreendidos sem que dele tenhamos uma visão abrangente e dialética.

Dialética, esta é a palavra sagrada, este é o conceito chave.

A dialética pressupõe que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo.

Para não ficarmos no diletantismo, digamos que a França, por exemplo, seja um grande bastião dos direitos humanos, por suas leis sociais, trabalhistas e penais; e ao mesmo tempo não o seja, por sua conivência com as agressões ocidentais a países do oriente médio.

A questão árabe-muçulmana na França também serve de exemplo. Inúmeros comentaristas fizeram asserções sobre a situação dos árabes na França. Que eles seriam massacrados, explorados, humilhados diariamente.

Há um pouco de exagero nisso. Ou, se preferirem, há uma situação dialética.

Vamos entrar em acordo que os 6 ou 7 milhões de muçulmanos na França (e para simplificar, uso os termos árabe e muçulmano como sinônimos) sofrem algum tipo de discriminação.

Mas é preciso convir também que há um outro lado, que não invalida a asserção acima. Todos esses árabes, em virtude de ideologia laica do Estado, gozam exatamente dos mesmos direitos que os franceses brancos e cristãos. Suas crianças frequentam boas escolas públicas, seus jovens têm acesso à universidade e aos empregos públicos. Os serviços de saúde são granjeados a todos os franceses, sem distinção de credo ou raça.

Se você entrar no George Pompidou, talvez a maior biblioteca pública do mundo, e uma biblioteca feita especialmente para jovens, com serviços de audiovisual, revistas e música, com espaços de alimentação e lazer, você encontrará uma quantidade enorme de jovens árabes e negros.

Os serviços públicos de transporte também não fazem distinção. Os árabes que trabalham nos grandes centros urbanos podem voltar às suas casas utilizando-se de transportes confortáveis e rápidos.

Essas condições têm permitido que um número crescente de árabes se tornem figuras destacadas da cultura francesa: há cineastas, escritores, músicos e intelectuais árabes em profusão.

Também seria injusto, com os próprios árabes, tratá-los apenas como uma massa de pobres e oprimidos. Os árabes têm ampliado rapidamente a sua participação na economia francesa. Há uma quantidade enorme de árabes se enriquecendo ou se consolidando como uma classe média próspera e pujante. Eu mesmo conheci vários. Os pequenos mercados de Paris estão quase todos em mãos árabes, o que significa que há um processo de ascensão social concreto junto aos imigrantes e seus descendentes.

A situação dos árabes, na França, me parece, neste sentido, bem melhor do que, por exemplo, os negros no Brasil, que perfazem um percentual bem maior, em nosso país, do que os árabes lá.

Um comentarista citou uma pesquisa que informava ser o desemprego entre os árabes (20%) quase o dobro da média na França (10%). Digamos que isso seja verdade. No Brasil, regiões pobres, como a baixada fluminense, também registram desemprego bem superior à média nacional. É um fato infelizmente corriqueiro: comunidades mais pobres sofrem desemprego maior, por conta de déficit na especialização profissional de seus moradores.

Há muitos árabes que ainda não aprenderam corretamente o francês, ou ainda não se especializaram profissionalmente, e tem dificuldade para arrumar trabalho num mercado altamente competitivo. Se são cidadãos franceses, todavia, tem direito ao seguro desemprego e a todos os programas sociais existentes no país, que são muitos.

Detalhe importante: as escolas e os hospitais públicos da França são abertos inclusive aos árabes que ainda vivem em situação ilegal. Não se pede documentos nas emergências de hospitais, e as escolas públicas matriculam qualquer criança residente no país, independente da situação de seus pais.

Voltemos à questão dialética. Isso não justifica a França atacar outro país, nem violar direitos humanos em outra parte do mundo.

Aí entramos na questão da Líbia e Síria, onde a França participou ativamente de ações militares, juntamente com outros países europeus, além do onipresente Tio Sam.

Hoje está claro que a França errou, para dizer o mínimo. Em se tratando de guerras, sabemos que “erro” é um eufemismo meio idiota.

Sem querer justificar o erro, mas dando uma de advogado do diabo, em nome do amor ao debate, como gostam de dizer os advogados, lembramos que a intervenção na Líbia aconteceu em meio a uma enorme comoção internacional provocada pela chamada “primavera árabe”.

A primavera árabe iniciou-se na Tunísia, onde derrubou o ditador, e depois tomou conta do Egito.

O mundo democrático e, em especial os setores progressistas, encantaram-se com o que acharam ser a renovação do que outrora chamávamos de “revolução”.

Uma revolução de verdade, feita pacificamente! Milhões de pessoas nas ruas exigindo mais direitos e mais democracia!

Eu lembro muito bem. A esquerda brasileira prestou um grande apoio político e moral à “revolução” no Egito. Eu mesmo escrevi artigos eufóricos para a Revista Fórum. A Marilena Chauí deu uma conferência para afirmar que se tratava, de fato, de uma revolução.

Então a primavera chegou à Líbia.

Milhares de pessoas saíram às ruas, nas principais cidades líbias, mas sobretudo no norte, com exatamente as mesmas demandas de seus irmãos árabes do Egito: mais direitos políticos, mais democracia, mais liberdade.

Então o ditador (ou presidente, se preferirem) começou a reprimir violentamente os protestos.

O massacre começou.

Reparem bem: até então ainda não desconfiávamos que os serviços secretos ocidentais, em especial os americanos, já tinham começado a instrumentalizar as manifestações da Líbia, com objetivo de derrubar Kadafi, um antigo desafeto do Tio Sam (embora nos últimos tempos, andasse amiguinho de todo mundo).

A imprensa francesa e europeia em geral, incluindo aí seus jornais mais à esquerda, iniciaram uma cobertura com um forte viés anti-kadafi. O espírito editorial que governava essa cobertura e esse viés ainda era a “pureza” popular da primavera árabe.

Eu mesmo, e hoje o confesso com remorso, entrei na onda e assumi uma posição anti-kadafi, inclusive discutindo com algumas figuras. Tempos depois, assumi o erro e hoje me parece cada vez mais claro que a Líbia estava infinitamente melhor com Kadafi do que hoje, um país devastado pelo terrorismo, instabilidade política e miséria social.

Mas naquele momento, Kadafi reprimia violentamente as manifestações.

É uma situação complicada.

Imagina se a Dilma mandasse o exército disparar mísseis sobre bairros inteiros de São Paulo, em virtude de manifestações políticas? Era disso que se acusava Kadafi, com vídeos e reportagens.

A esquerda brasileira entrou numa crise existencial horrorosa em 2013, quando as jornadas de junho tomaram o país. Muita gente, de espírito genuinamente progressista, falava na necessidade de repressão. Os próprios manifestantes pareciam testar os limites da democracia, ao interromper avenidas vitais para a circulação nas grandes cidades, e  quebrarem lojas e prédios públicos.

Bom, o governo Kadafi não hesitou e iniciou uma repressão violentíssima.

A repressão era real, e o sistema de segurança pública líbio tinha métodos assustadores, que os serviços ocidentais de informação e contra-informação trataram de expor ao mundo talvez com exagero.

Falava-se em tipos de tortura terríveis na Líbia. Eu me lembro perfeitamente. As redes sociais diziam que os agentes de Kadafi prendiam manifestantes e os enrolavam em faixas, como múmias, mantendo-o vivos, por semanas a fio. Ou que enterrava pessoas vivas. Havia descrições tenebrosas e detalhistas sobre todo o tipo de torturas.

A opinião pública francesa, inclusive os árabes, inclusive as esquerdas, exigiam que a França participasse das operações “humanitárias” para ajudar os líbios a não serem massacrados por um ditador enlouquecido.

Foi nesse clima que a França resolveu ajudar um pool de países a bombardear as forças de Kadafi.

A mesma coisa aconteceu em relação à Síria.

Hoje sabemos que a situação não foi tão simples. Muita gente foi enganada. Os jovens árabes que pediam democracia foram enganados. A esquerda que acreditava na possibilidade de uma revolução democrática nesses países foi enganada. Inúmeros políticos franceses, incluindo aí os mais honestamente comprometidos com valores humanistas, que manifestaram repúdio à Kadafi e apoiaram uma intervenção “humanitária”, também foram enganados.

Governos democráticos tem um defeito grave. São empurrados pela opinião pública, pelos lobbies privados, pela pressão da mídia.

Bem, o advogado do diabo encerra sua defesa do governo francês.

Não existe inocência em política ou geopolítica.

As intervenções, tanto na Líbia quanto na Síria, não deram certo.

Mas a gente voltará a falar da questão da culpa e do mal em geopolítica mais tarde.

*

Agora eu quero falar sobre religião, respeito ao outro e liberdade de expressão.

Em primeiro lugar, insisto em denunciar uma injustiça. Os críticos do Charlie continuam espalhando algumas inverdades. Num texto publicado no blog do meu amigo Castor, vemos a figura da ministra negra Christiane Taubira, representada como uma macaca num desenho. Ora, ponhamos um fim nisso, de uma ver por todas! O Charlie não era racista! O jornal defendeu a ministra negra de uma acusação de racismo feita por uma política da Frente Nacional. Fez campanha para que a ministra fosse condenada, e o conseguiu. A ministra agradeceu ao jornal, e estava lá, na primeira fila entre os que prestavam homenagem aos desenhistas mortos. Já apresentei os textos e os contextos dessa história neste post.

Outra injustiça é de que o Charlie “perseguia” os muçulmanos, como se fosse um jornal inteiramente voltado a publicar charges contra Maomé. Não é verdade. Eu pesquisei centenas de edições de Charlie Hebdo, a começar pelas mais recentes. Ele publicou apenas raríssimas charges de Maomé, e a única mais pesada, realmente de mau gosto, é aquela em que Maomé aparece de bunda de fora, com uma estrela estampada no meio.

É a única charge de Maomé assim, e foi publicada no miolo da página de um jornal impresso, exclusivo para assinantes. A pose e o estilo escatológico, no entanto, eram marcas do Charlie. Digo “eram” porque a redação foi quase inteiramente dizimada. O Charlie que está nascendo é um outro.

E sim, Charlie fez coisa pior com a religião católica. Na capa.

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Outras charges em que Charlie usa a escatologia do traseiro:

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Vários comentaristas rebelaram-se dizendo que Charlie não fazia o mesmo com as figuras sagradas do judaísmo.

Não posso afirmar isso com certeza, pois teria que examinar todos os números de Charlie, e, francamente, já me bastaram as centenas que vi. Mas digamos que realmente eles não tenham feito nada similar com os judeus.

Volto a lembrar, contudo, que os judeus são minoria na França. São 500 ou 600 mil judeus, contra 6 ou 7 milhões de árabes, e mais 50 milhões de católicos. Eles fizeram charges de figuras sagradas católicas e muçulmanas. Para mim, já está de bom tamanho. Mas novamente por amor ao debate, gostaria de dizer algumas palavras sobre o fato de Charlie não ter, supostamente (pode ser que tenham feito e a gente não viu ainda), feito nenhuma charge sobre profetas do judaísmo.

Em primeiro lugar, há uma covardia na asserção. Os caras morreram. Ou seja, se pudessem participar do debate, eles responderiam simplesmente fazendo uma charge de Moisés com a bunda de fora, com um crescente estampado. Eu respondi isso aos leitores, mas eles me disseram que esse argumento era “abstrato” demais, porque nunca poderíamos saber se eles estariam dispostos a isso.

Esse argumento, o da morte deles, é que eu considero o mais forte: como saber que eles não estariam dispostos a fazer uma charge de um profeta judeu?

Como saber se, no mesmo dia em que foram executados, não estariam discutindo exatamente essa ideia numa reunião de pauta?

Mas há um outro.

Há o argumento da história. A França ainda guarda um profundo trauma do antissemitismo cujo apogeu se dá na II Guerra Mundial.

Nunca um muçulmano foi morto em atentado terrorista na França. Os muçulmanos podem sofrer discriminação, mas não são alvos de atentados terroristas. Judeus são mortos e perseguidos na França há séculos.

Na II Guerra, trens lotados de judeus franceses seguiram para os campos de morte nazistas. E, em muitos casos, com apoio da população cristã!

O antissemitismo na França era terrível. E explica em parte o vergonhoso “colaboracionismo” de milhões de franceses com o regime nazista que assolou a Europa durante a II Guerra.

Nunca houve nada similar, em território francês, em relação aos árabes. Os problemas da França com suas colônias não teve nada a ver com um problema de “raça” ou “religião”, mas simplesmente uma divergência política e econômica.

Wolinsky, um dos desenhistas mortos, era um judeu nascido na Síria, filho de um judeu polonês que fugiu do nazismo. Wolinsky tinha 80 anos de idade.

Quando eu lembrei que os judeus formam uma minoria na França, alguns reagiram, indignados, dizendo que são muito ricos.

Em primeiro lugar, não é verdade, evidentemente. A maioria deles é de classe média. Deve haver um porção de pobres. Em segundo lugar, e daí que são ricos? Por acaso eles ficaram ricos explorando árabes? Não. Isso é antissemitismo puro. É o mesmo discurso antissemita de outrora: judeus são ricos, etc, etc.

Também há um monte de árabe rico na França.

O fato de constituírem, de fato, uma minoria, e o histórico de antissemitismo no país, também ajuda a explicar porque há um cuidado maior, na França, em relação a sátiras contra judeus, do que sátiras contra católicos e muçulmanos.

De qualquer forma, não creio que nenhuma sátira anti-judaica motivaria nenhum grupo radical judeu a cometer um atentado contra seus autores.

*

Agora discutamos a questão do “respeito” às religiões.

Todas as religiões devem ser respeitadas. Certo. Ou não?

Durante séculos, a Igreja Católica fez o papel de principal inimiga da liberdade de expressão.

Praticamente todos os humanistas foram perseguidos por causa da Igreja. Alguns foram condenados a fogueira, outros torturados e presos, outros tiveram suas obras censuradas.

Talvez em nenhum país esta censura da religião contra a arte se evidenciou de maneira tão evidente como na França.

Ninguém zombou mais do catolicismo do que Voltaire, o gênio dos gênios, o que lhe valeu algumas temporadas nos porões da Bastille.

Lembro-me de uma crônica genial de Voltaire, sobre um dos episódios mais famosos do Novo Testamento. A expulsão dos vendilhões do templo.

Nunca o termo francês para zombar, “moquer”, obteve um sentido tão brilhante.

Voltaire descreve para nós o extremo ridículo daquela situação. Jesus Cristo, o Redentor, o protetor dos fracos e oprimidos, se aproxima de uma igreja, próxima da qual trabalham dezenas de vendedores de lembrancinhas religiosas. Nada diferente do que vemos em Aparecida e Juazeiro, onde milhares de brasileiros ganham o pão e o leite das crianças vendendo miniaturas e livretinhos.

Não é crível que o comércio de miçangas religiosas daquele templo fosse protagonizados por milionários. É mais que provável que os vendedores fossem pequenos comerciantes, expostos, como todos os pequenos empresários da época, às intempéries políticas, às arbitrariedades dos poderes locais e às vicissitudes gerais da vida num tempo rude.

Pois não é que Jesus começa a chutar as barracas, destruindo todo o material dos comerciantes?

O texto de Voltaire segue num tom de zombaria pura. Ele especula ainda que muito provavelmente Jesus era acompanhado de homens armados, pois que não seria possível cometer uma violência tão gratuita e arbitrária contra tantos pequenos comerciantes, sem que estes não estivessem intimidados e ameaçados pela presença de armas letais.

Não vou cansá-los com mais citações de Rabelais, outro brilhante “moqueur” francês, e que igualmente foi perseguido a vinda inteira pelas autoridades eclesiásticas.

O que devemos refletir, nessa questão do respeito às religiões, é o seguinte: essas zombarias contra as religiões não seriam necessárias para desenvolver, nelas, a tolerância às críticas, e, por fim, para que evoluíssem?

Na História, de Heródoto, o autor descreve os costumes religiosos de alguns povos “bárbaras”. Lembro-me de um povo onde o morto era enterrado junto com todas as suas dezenas de amantes.

Em algumas áreas islâmicas radicais, mulheres acusadas de adultério são condenadas a serem mortas via apedrejamento, mesmo que elas provem que há tempos estavam separadas de seus maridos.

Em outras áreas, como se diz estar acontecendo nos territórios dominados pelo Estado Islâmico, há leis que obrigam as famílias a mutilarem o clitóris das meninas, para que elas não sejam, mais tarde, tentadas pelo pecado do prazer sexual.

As zombarias contra uma religião que ainda permite costumes tão agressivos aos direitos humanos não seriam uma necessidade do espírito do tempo, do zeitgeist, de fazê-las se modernizarem?

*

Eu tenho formação católica e já li a Bíblia diversas vezes. É um livro lindo, cheio de mistérios e lições morais. Minha esposa é bastante católica, tanto que casamos numa igreja, e eu tive que me batizar e fazer primeira comunhão.

Não me sinto agredido, contudo, pela charge publicada acima, mostrando Jesus enrabando Deus e sendo enrabado pelo espírito santo, porque entendo que é apenas uma charge, uma zombaria inocente. Jesus não está ali. Maomé não está ali. Ambos são mitos religiosos muito acima de nossas querelas mundanas.

*

Quando discutimos liberdade de expressão, fala-se muito na necessidade de impor limites.

Certo, não existe liberdade absoluta, até porque aí já não seria liberdade, mais um sistema governado pelos mais fortes.

A liberdade só existe quando há leis e há limites.

A liberdade, porém, tem o sentido de uma força que vai até os extremos da lei e dos limites.

As pessoas se esquecem que há infinitas dificuldades para se impor limites à liberdade de expressão.

Por exemplo, quem serão os juízes destes limites?

Quais serão as penas para quem extrapolar estes limites?

Um artista é sempre um sujeito meio doido. Quanto melhor artista, mais doido costuma ser. Ele terá algum tipo de leniência especial para suas liberdades?

E se esta leniência for concedida, então quem julgará quem é artista ou não?

Tenho a impressão que os franceses chegaram a um estágio bastante avançado sobre as liberdades.

A sua justiça não é perfeita, nem eles pretendem que o seja. Os assuntos são debatidos na sociedade e busca-se sempre aperfeiçoar o sistema de liberdades.

O objetivo, porém, é ampliar a liberdade, porque historicamente isso reduzirá o custo político.

Sempre que se tenta impor limites à liberdade, isso custa caro. É preciso contratar juízes, mas a decisão de um juiz será sempre arbitrária. É sempre mais fácil haver a liberdade de expressão.

Não se pode ofender pessoas de carne e osso. Esse é o limite da liberdade de expressão na França. Com exceção, é claro, de figuras públicas, como presidentes da república e executivos proeminentes de concessões públicas. Quer dizer, até mesmo nesses casos, também há limites, embora tênues, a serem decididos pelo arbítrio de um juiz.

Tirando pessoas de carne e osso, pode-se tudo, inclusive blasfemar.

Nem todos os franceses concordam, mas esta é a lei.

Amigos franceses me disseram que também se chocavam com algumas charges do Charlie. Esse era o objetivo, aliás. Mas eles as aceitavam como um direito do jornal à liberdade de expressão.

*

Para encerrar o post, vou iniciar aqui uma teoria que gostaria de discutir com vocês. Uma teoria um tanto perigosa, sobre a geopolítica e o mal.

Não sei se alguém já escreveu sobre isso, mas é interessante especular se é adequado fazer julgamentos morais, quando tratamos de geopolítica.

Me parece sobretudo algo necessário, porque o debate política nunca me pareceu tão impregnado de julgamento moral. As pessoas procuram sempre mocinhos e vilões em toda a parte.

Marx jamais procurou culpar países, nem mesmo governos, pelas desgraças que se abatiam sobre as classes oprimidas. A culpa estaria no sistema como um todo, que engole governos, países e classes, aí incluindo os governos mais poderosos, os países mais ricos e as classes mais instruídas.

Observou-se isso no debate sobre o caso Charlie. Quem são os vilões? São os chargistas? São os terroristas? É a França? É o Islã? É o conceito de liberdade de expressão? É o obscurantismo religioso? São os EUA? A CIA? O sionismo? Os judeus?

O debate causou um mal estar justamente por esse cruzar incessante de dedos apontando para todos os lados.

Por exemplo, muitos apontaram o dedo para a irresponsabilidade dos desenhistas.

Tudo bem, mas até que ponto essas pessoas acham que as intenções dos mesmos eram más? Os desenhistas eram pessoas de má índole? De caráter desprezível? Preconceituosos, canalhas, arrogantes?

A intenção dos desenhistas era humilhar populações “massacradas” das comunidades árabes francesas?

Ou será que eles não eram tão maus assim?

Infelizmente, eles foram mortos, e não poderemos mais conhecê-los. Talvez não fossem as melhores pessoas do mundo, mas talvez fossem pessoas com as quais pudéssemos nos identificar, se entendêssemos seus pontos de vista.

A mesma coisa vale para os terroristas? Ou não?

Lembremos que eles não mataram apenas os 10 jornalistas & chargistas que se encontravam na redação do Charlie. Mataram também, pelas costas, um policial de origem árabe, Ahmed Merabet.

Seremos tão rigorosos com chargistas e tolerantes com assassinos?

Ou talvez isso não tenha nada a ver, dirão alguns de vocês. Não é questão de perdoar ou tolerar, mas compreender a situação. Certo.

Eles são culpados, são monstros, mas precisamos ver o conjunto. Eles vieram de comunidades oprimidas durante séculos.

Ok, posso até concordar com isso, embora fazendo todas as ressalvas que já apresentei acima, contra uma possível demagogia barata em relação à situação dos árabes na França.

O que não consigo concordar é que possamos apresentar os desenhistas do Charlie como os vilões.

O que eu tenho visto, com lamentável frequência, é uma verdadeira mistificação do trabalho do Charlie.

As pessoas não estão escrevendo sobre o Charlie.

Inventou-se um outro Charlie, um Charlie que não existe, um Charlie sionista, que se comprazia em humilhar as comunidades islâmicas da França e do exterior.

Isso não é verdade.

A qualquer momento, as edições completas do Charlie serão publicadas traduzidas no Brasil, essa injustiça será desfeita.

Eu já mostrei que o Charlie assumia uma forte defesa da Palestina, e atacava duramente as posições do UMP e da Frente Nacional, a direita e a extrema-direita, respectivamente, em relação a este assunto.

Voltando a questão do mal, o pensamento vale para a França, e para qualquer país. Faz sentido julgar todo um país, com a sua teia de contradições internas, como se fosse uma entidade moral única?

Se formos julgar a França, levaremos em conta apenas as suas aventuras coloniais? Esqueceremos que seus governos massacraram sobretudo trabalhadores franceses?

Por séculos, a França explorou e massacrou seus camponeses, e depois seus proletários. Ela é culpada por isso também. Napoleão massacrou populações inteiras, em toda a Europa. Igualmente culpada.

Entretanto, e as coisas boas oferecidas pela França ao mundo, as ideias, as leis sociais, a constituição republicana, a arte, a filosofia, serão esquecidas?

Mais tarde, discutiremos os mesmos parâmetros para analisar o papel dos Estados Unidos na história da humanidade.

No entanto, neste sentido, nós, brasileiros, não somos ainda mais culpados? Muito mais que os franceses, que superaram suas misérias há muito tempo, enquanto nós ainda matamos pobres aos milhares, todos os anos?

Não exploramos colônias no exterior, mas não promovemos verdadeiros massacres contra os mais pobres, até hoje?

Nosso governo é de esquerda, como o da França hoje, mas uma esquerda acuada, forçada (sabe-se lá porque) a adotar medidas macro-econômicas conservadoras e impopulares.

Assim como o partido socialista francês é acusado de não ser mais progressista, assim também se acusa o PT no Brasil.

Não mereceríamos, então, um pouco de terrorismo também?

Claro, condenaríamos imediatamente qualquer atentado contra nossos jornalistas, mas será que buscaríamos explicações sociológicas para assassinatos em massa, planejados friamente?

Poderíamos até fazê-lo, como se fez, e com admirável inteligência, em tantos ensaios sobre o cangaço.

Tudo, inclusive o suposto “mal” na política e no banditismo, deve ser analisado, escrutinizado, observado pela ciência política e pela história, sem demasiados julgamentos morais.

Mas seríamos capazes de transformar em vilões os jornalistas assassinados por nosso eventual terrorismo tupiniquim, dizendo que eles, os jornalistas, “exageraram” e que a liberdade de expressão tem limites?

E se os nossos artistas do texto e do desenho não pertencessem a nenhum monopólio, se trabalhassem num jornal pequeno, alternativo, e tivessem um histórico (não um histórico antigo, dos anos 70 e 80, mas contemporâneo) de posições progressistas, socialistas, anarquistas, em prol da classe trabalhadora e contra a extrema-direita, e fossem assassinados por extremistas reacionários de uma religião qualquer, em função de uma charge contra uma figura sagrada daquela religião?

Aceitaríamos que as vítimas fossem vilanizadas porque teriam “exagerado” na liberdade de expressão?

É uma comparação rudimentar, eu sei, mas é o máximo que pude fazer para aproximar realidades e criar um mínimo de empatia dos brasileiros para com as vítimas do atentado em Paris.

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