A presidenta Cristina Kirchner viaja este fim de semana à China, após desbaratar aquilo que pode ter sido o maior dos muitos factoides já despejados sobre um governo popular: a denúncia que leva a assinatura do promotor Alberto Nisman, encontrado morto com um tiro na têmpora, no banheiro de seu apartamento, no último domingo, 25 de janeiro. O factoide, como o caro leitor há de recordar, é a fabricação, para uso político, de um fato capaz de produzir enorme impacto e influenciar grande número de pessoas. Geralmente produzido por quem disponha dos meios massivos de comunicação, que controlam as notícias, o factoide costuma assumir ares de verdade num determinado momento, sobretudo quando se dá em meio de grandes comoções.
Outras vezes, porém, a armação pode ser desmascarada quando se debate com evidências muito fortes. Foi o que aconteceu com a denúncia de Nisman. Logo descartada por falta de fundamento e de coerência, pela maioria dos juristas nacionais e internacionais, inclusive de oposição, ela acusa a presidenta e o seu chanceler Héctor Timerman de “confabulação terrorista”, com o fim de proteger seis iranianos acusados, até aqui sem provas irrefutáveis, pela morte de 85 pessoas no atentado à Associação Mutual Israelita da Argentina (Amia), ocorrido no distante ano 1994.
À primeira vista, as circunstâncias a morte súbita do promotor, encontrado numa poça de sangue no banheiro de seu apartamento, induzia à convicção de ter sido perpetrada por um governo mafioso, como a propaganda quis ressaltar. Mas os fatos foram caminhando em outra direção, à medida que os acontecimentos iam se desdobrando. Com efeito, se estava diante de uma poderosa armação dos poderes concentrados, engendrada para tomar carona na comoção provocada pelo assassinato dos cartunistas da revista Charlie Hebdo, que chocou o mundo, no dia sete, em Paris.
<strong>Esta armação,</strong> ocorrida em plena luz do sol, envolveu capas sucessivas dos jornais e revistas associados aos Grupos Clarín e La Nación, que fazem demolidora oposição ao governo popular, imediatamente seguidas de exortações diuturnas à rebelião, ao longo da cobertura das redes de TV e de rádio do conglomerado. A peça judicial serviria como gancho para causar indignação generalizada e, consequentemente, atrair milhões de pessoas às ruas de Buenos Aires e outras grandes cidades argentinas. Algo similar àquela mobilização gigantesca, em Caracas, que resultou na prisão e derrubada, por 48 horas, do presidente Hugo Chávez, na Venezuela, em 11 de abril de 2002. Tudo, porém, deu errado, depois que a Casa Rosada acionou seu aparato jurídico, político e sobretudo popular, com a presidenta à frente, usando pessoalmente suas contas nas redes sociais Twitter e o Facebook e em cadeias nacionais de TV, para desmontar a diabólica manobra.
De tal forma que, já na segunda, 26, véspera de uma aparição em um comitê da Câmara dos Deputados, convocada pela deputada Patrícia Bullrich, ligada ao presidenciável oposicionista Maurício Macri, o promotor Nisman se viu sozinho e desamparado, só tendo a seu lado as manchetes. É que suas alegações haviam caído por terra, uma a uma, diante das evidências que se foram somando nos dias seguintes. A mais sensacionalista delas, a de que Cristina teria tramado para desativar o alerta vermelho da Interpol contra os seis iranianos indiciados no caso, se defrontaria com o cabal desmentido daquele organismo de polícia internacional e de seu diretor na época, o ex-chefe de segurança da Casa Branca Robert Kennedy Noble. A Interpol, não só assegurou que o alerta continuava vigendo, como informou não haver qualquer solicitação da justiça argentina em sentido contrário. Aqui, a denúncia de Nisman incide em outro erro crasso, pois a prerrogativa para este tipo de ação não é da presidenta e sim do juiz responsável pelo caso.
Outros aspectos da denúncia, como aquelas atribuindo a Cristina uma “conspiração” para trocar grãos por petróleo com o Irã, no afã de diminuir os impactos da crise econômica, eram tão mirabolantes, que juristas como o ex-ministro da Suprema Corte Raúl Zaffaroni, sustentavam não constituir delito, e por isso, sem efeito. Mesmo assim, o governo provava que a Argentina nunca havia feito esse tipo de intercâmbio com o Irã, quando menos porque o petróleo iraniano é do tipo pesado, igual ao extraído no país platino, onde há excedentes do produto.
<strong>Daí as conjecturas</strong> em torno da morte de Nisman: suicidou-se desesperado por ter sido flagrado no factoide ou foi suicidado como queima de arquivo, prática esta não muito incomum nas contendas do submundo argentino envolvendo políticos, juízes, promotores e espiões, inclusive neste episódio específico da Amia? Tendo considerável parte de sua estrutura enredada em suas relações com setores insatisfeitos da ditadura, agentes da Secretaria da Inteligência (SI, ex-SIDE), ex-nazistas, sionistas extremados, a CIA, o Mossad, em ações sempre acobertadas pelos meios de comunicação hegemônicos, a Justiça não consegue apresentar até aqui nenhuma prova ou indício sério que leve ao esclarecimento do fim do indigitado promotor. Tudo tende a emaranhar-se na grande confusão de que até hoje não saiu o atentado em si da Amia.
Seja como for, a morte de Alberto Nisman, personagem altamente midiatizado, provocou outra comoção, principalmente quando a mídia passou a insinuar tratar-se de um crime partido da residência oficial de Olivos, onde Cristina se restabelece de uma fratura no tornozelo. Mas, novamente, o governo consegue provar que a culpa estava do outro lado, ou seja, do mesmo submundo em que chafurdava o promotor e esta banda podre da justiça e os setores midiáticos hegemônicos, dos quais participa ativamente a embaixada americana, de que Nisman era frequentador assíduo, como atestam os vazamentos do Wikileaks. Uma das suspeitas levantadas é quanto ao técnico de informática Diego Lagomarsino, amigo íntimo do promotor, que assumiu ter emprestado o revólver Bersa calibre 22, de partiu o tiro certeiro que terminou com os dias do promotor. Diego, que Cristina denunciou ser irmão de Gerardo Lagomarsino, diretor de um escritório de advogados associado ao Grupo Clarín, tinha entrado dias antes com um pedido de passaporte à Polícia Federal, cuja tramitação foi retida por ordem da presidenta. Não se sabe porque, a justiça se recusa a considerar Diego Lagomarsino, a última pessoa a ter visto Nisman com vida, como suspeito, só o imputando pelo empréstimo da arma.
O fato é que o promotor objeto de grandes manchetes e aparições na TV por mais de dez anos, acabou tendo um fim triste, esquecido e desprezado pelos poderes que o alçaram como quase uma estrela de TV. Seu enterro, que bem poderia ter significado uma réplica parecida ou mesmo amplificada da multidão que se despediu em Paris dos cartunistas do Charlie Hebdo, consistiu numa cerimônia familiar quase escondida no cemitério israelita de La Tablada, na última sexta-feira. Sua ex-esposa, a juíza Sandra Arroyo, mãe de suas duas filhas, que rechaçou de forma terminante a tese do suicídio, teve de consolar-se com uma oração solitária diante do féretro, depois de ver negado seu pedido para uma nova autópsia do corpo do promotor.
Suas palavras  – “Temos certeza de que isso (sua morte) foi obra de outras pessoas” -, quase não tiveram repercussão, porque o pobre Nisman já não era útil na conspiração contra Cristina. Esta por sua vez, aproveitou as condições objetivas geradas pelo crime para fazer uma limpeza nos serviços de inteligência, tradicionais fornecedores das notícias sensacionalistas do Clarín e do La Nación, ao velho estilo Rupert Murdoch nos tabloides de Londres. De uma só penada, a presidenta, tinha substituído dias antes toda cúpula da SI, inclusive do célebre agente Roberto “Jaime” Stiusso, uma espécie de Edgar Hoover, o célebre diretor do FBI que atravessou 10 administrações republicanas e democráticas na Casa Branca. Formado e cevado ainda na última ditadura militar de Videla, Stiusso era um tipo intocável, de que nem Cristina nem Néstor Kirchner tinham conseguido livrar-se, até ali. Quando menos porque era altamente cortejado não apenas nas redações do Clarín e do La Nación, como gozva de vigilante cobertura das embaixadas dos Estados Unidos, Inglaterra e Israel, e de seus respectivos serviços secretos CIA, Mossad e MI6,
A limpeza na inteligência e o revide bem sucedido a mais este golpe midiático, propicia agora que a presidenta da Argentina realize sua várias vezes adiada visita à China para firmar importantes convênios destinados à infraestrutura e outros setores-chave da economia de seu país. Finalmente, a viuva de Néstor parte feliz quando soube que o novo governo de esquerda da Grécia, chefiado porAlexis Tsipras, decidiu adotar o modelo kirchenerista de reestruturação da dívida externa (veja vídeo acima). Isso para não falar no desmonte do tal factoide.

Cordialmente, FC Leite Filho
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